Sertão Pretérito

Minhas espáduas denunciam meu sertão pretérito.

Minhas longas botas, parte de mim, sertão até os joelhos.

Meus testículos abarrotados de sementes verdes, sertão que virá.

Meus pés, sertão cansado.

Minhas mãos, silentes, se multiplicam no sertão da alcova.

A música dos meus tormento-minutos, sertão que não se cala.

Domingo, de Francisco Carvalho

Venus, de Botticelli (detalhe)

Domingo

É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos

ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos

e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio

O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.

É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.

(Francisco Carvalho)