A entrevista de Viana

Antonio Carlos Viana nasceu em Aracaju, Sergipe. É mestre em teoria literária pela PUC-RS e doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, França. É tradutor e professor universitário aposentado. Entre outras obras, escreveu Brincar de manja (Cátedra, 1974), O meio do mundo e outros contos (Companhia das Letras, 1999), Aberto está o inferno (Companhia das Letras, 2004), Cine privê (Companhia das Letras, 2009). Recebeu o prêmio APCA 2009 de melhor livro de contos por Cine privê.

Menelau e os homens: O que levou o senhor a escrever a orelha de Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, ficção), de Dênisson Padilha Filho?

Antonio Carlos Viana: Tenho comigo um código de honra: só faço orelha quando o livro é realmente bom. Quando me pedem, falo com toda sinceridade que só farei se gostar. Orelha é algo desmoralizado no nosso país. Elogia-se tudo. Dá no leitor certa frustração, se não raiva, quando o livro não entrega o que a orelha promete. Alguns “orelheiros”, quando o livro é ruim, dão um jeito de não se comprometer e ficam dando voltas e voltas para, ao final, não dizer nada. Não faço isso. O livro de Dênisson me pegou num momento de muito trabalho e o editor queria que eu fizesse a orelha em três dias. Eu estava no júri do Portugal Telecom e tinha acabado de ler as 50 obras concorrentes. Já estava vesgo de tanto ler. E aí vem o livro “Menelau e os homens”. Confesso que comecei a ler com má vontade, mas o livro foi me pegando e vi que ali tinha um escritor, não era apenas um desses que querem porque querem publicar por pura vaidade. As duas histórias são muito boas, numa linguagem enxuta, lírica, sem concessões.

M: Violência e lirismo são usados pelo senhor para caracterizar as histórias de Dênisson. Em que medida eles aparecem e dão o tom dos enredos?

A: Quando leio um livro, gosto de observar as polarizações que o sustentam. As duas histórias de Dênisson têm essa coisa da violência, tão comum nos nossos dias, mas ao mesmo tempo têm um lirismo tocante. Para não tirar a surpresa do leitor, prefiro não dizer nada da primeira história, que até a metade nos deixa num suspense incomum, e quando este se desfaz ficamos surpreendidos pelo que revela. A segunda é uma história de coragem por parte do escritor, de escrever sobre um tema tão distante destes nossos tempos cibernéticos. Mas Dênisson se sai muito bem, sempre surpreendendo pelos novos caminhos que a narrativa abre.

M: A culpa, sutilmente ou não, aparece também. Isso dá literatura?

A: A culpa é algo arraigado no ser humano. Parece que já nascemos com ela. Meu segundo livro de contos, “Em pleno castigo”, é sobre isso. Todos os contos têm personagens que sentem culpa de alguma coisa e não sabem por quê. No livro de Dênisson, ela aparece, mas acho que em primeiro plano está a violência típica dos lugares onde a força impera e não a razão.

M: Os aspectos que lhe chamaram a atenção nas histórias de Menelau e os homens são elementos de aproximação ou de distanciamento da obra do senhor? Quais são esses elementos?

A: Houve logo na primeira leitura um reconhecimento de terreno entre as histórias de Dênisson e os meus contos. Primeiro, as histórias se situam na zona rural (as dele parecem acontecer num lugar do fim do mundo, para além do sertão). É um mundo árido, sem horizontes à vista. Também trabalho com isso. Não vejo saída para o ser humano (isso também na vida real). Parece que nascemos condenados a encenar uma tragédia que mais cedo ou mais tarde acontecerá. Existe também a questão da inocência, que torna as coisas ainda mais trágicas. E o modo de narrar de Dênisson torna tudo mais denso, mais escuro.

A foto foi desse site.

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A orelha de Viana

Um escritor é sua linguagem. Sendo assim, estamos diante de um escritor: Dênisson Padilha Filho e este seu Menelau e os homens. O livro traz duas histórias que nos conduzem a um Brasil profundo, perdido no espaço, onde violência, lirismo e humanidade se fundem de forma indissociável.

A primeira história, que dá título ao livro, coloca em cena dois amigos inseparáveis, Davi e Menelau. O narrador sabe tirar da situação criada momentos de alta tensão e poesia, até chegar a seu final, dos mais tocantes de nossa literatura.

A segunda história, Calumbi, nos leva a uma época muito distante de nós: fins do século XIX.  O sítio do Calumbi, governado por dona Emiliana, de espírito escravocrata entranhado na alma, é o cenário da luta desigual entre ela e suas duas criadas, mesmo já tendo sido abolida a escravidão. As irmãs Jacira e Eulália sofrem sob o jugo de uma mulher que pensa ser ainda dona do corpo e da alma daqueles que lhe servem.

Embora seja um mundo áspero o criado por Dênisson Padilha, essa aspereza é minimizada pelo poder arrebatador da linguagem, por ele saber jogar as palavras com toda sua precisão. Exemplar é a cena em que Jacira pergunta à irmã como nasce o amor, e ela responde tão simples e definitiva: “O amor não nasce. O amor é, e pronto”.

O que há de comum entre as duas narrativas são os caminhos inesperados por onde enveredam. Quando pensamos que tudo está convergindo para determinado final, acontece uma guinada que altera nossas expectativas. Neste sentido, Padilha realiza de forma admirável aquela capacidade que todo bom conto deveria ter: surpreender o leitor.

Estamos, pois, diante de um escritor forte, que não se intimida ao revisitar um espaço que para muitos estaria esgotado: o sertão; aqui, mais precisamente, a caatinga. O que Dênisson mostra é que, para a literatura, não é o espaço que importa, mas a linguagem que o reveste.

Antonio Carlos Viana

Viana é autor de Brincar de manja (Cátedra, 1974), O meio do mundo e outros contos (Companhia das Letras, 1999), Aberto está o inferno (Companhia das Letras, 2004), Cine privê (Companhia das Letras, 2009), entre outras publicações. Quer saber mais? Clique aqui, aqui e aqui.