MENELAU E OS HOMENS: Demasiado ambíguos – Resenha de Paulo André Correia para a VERBO21

 

Clique no trecho e leia a resenha completa que a VERBO21 publicou sobre Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012).

“Numa conversa virtual com Dênisson, falei desse viés ritualístico e ele falou do confronto entre o ideal helênico de cultura e o ideal judaico. Atentei então para os nomes dos personagens. Menelau, que lembra o ideal grego de herói e Davi, o herói judaico, com a vitória do segundo. Na minha leitura, como já salientei, vi a metáfora da invasão violenta dos valores da dita modernidade urbana. Davi, capturado, deixa o amigo Menelau nas brenhas do sertão por vários dias e percebe que só resta voltar à cidade, deixando a certeza de que na vida não há inocentes, pois como lhe revela a voz intrusa que aparece na narrativa: “os homens não são bicho de confiança” (p. 43). Davi, então, “tomou as rédeas de sua égua monumental, montou e se afastou num galope apressado, afinal, a cidade precisava dele” (p. 43). A hybris (a ambiguidade de que fala o narrador de Calumbi) derrota a aretê (o ideal épico de virtude)”.

Paulo André Correia é Mestre em Literatura pela UEFS. Atualmente leciona na UNEB.

Anúncios

Fuja sem olhar pra trás

E as perguntas eram muitas na cabeça de Davi: Onde estavam os amigos, correligionários de sua família e de seu irmão? Onde estaria agora seu irmão? Pior que ele? Será que capturado? Haveria se rendido? Ou teria trocado tiros até a morte? Onde foi parar, ou como se acabou, da noite pro dia, tudo de prestígio e carisma de que tanto gozaram por toda a vida? Mas é que os homens não são bichos de confiança e, se há algo que, definitivamente, não se pode atribuir a eles é retidão e civilidade; pelo menos, não aos homens daquele vilarejo. Bastava que um alguém — que nunca, sequer, tenha recebido um reles bom-dia na rua — se tornasse capataz do intendente para que sua parentada passasse a ser tratada feito lorde. Ou bastava que nova indicação de intendente ocorresse para que se invertesse o rumo dos rapapés.

Difícil saber, em detalhes, o que houve afinal, já que nem tempo para perguntas lhe restou. Vinha chegando à tardinha do dia anterior ao sossego de sua casa isolada do outro lado da serra, quando um recado lhe alcançou as mãos: “Fuja, Davi! Salve sua pele. Fuja sem olhar pra trás!”. Desistiu de praguejar e de lamentar pra dentro; olhou pro lado e viu Menelau, com quem deveria aprender a ficar quieto, afinal, de nada mais valiam seus ódios e mágoas. Agora era Menelau e ele, a pé.

A foto é daqui.

Menelau, Davi e as cagaitas

A foto foi daqui.

Davi levantou-se do chão e foi se recostar ao tronco da cagaiteira, onde estava o amigo. Correu as vistas pelo horizonte incerto, metáfora dos seus dias, e se sentou ao lado de Menelau. Foi quando se entregou a catar quatro, cinco cagaitas maduras no chão. Menelau nunca gostou, mas, deixando-se levar pela cena em que Davi abocanhava vorazmente as cagaitas aos punhados, comeu duas e até que se agradou daquilo doce-azedo na boca. E foram limpando a sombra da cagaiteira que logo, logo se desembuçou dos frutos amarelos. Pareceu até que o tempo e o sol, pouco a pouco, foram ficando amigos de Menelau e Davi e a tarde foi se esmaecendo, e os dois amigos, chumbados do efeito da cagaita — que aquilo, maduro, é igual a pinga —, dormiram, degustando a brisa fraca que tangia os contrafortes da serra e o carrascal, naquela hora velha da tarde. Acantoados os dois no curral de pedra, feito dois bois esquecidos no mundo.