“Charla”, conto inédito de Dênisson Padilha Filho, na Verbo21

Colt 45, The Peacemaker, 1873

Dizem que Deus criou os fortes e os fracos, e o Colt os igualou. Mas há quem diga também que uma estrovenga dessas de seis tiros só é ameaça na mão de um forte; ou pelo menos quando seu portador não está diante de um. (…)

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Um cometa cravado em tua coxa

A intenção desta resenha é recomendar um livro terrivelmente bem escrito.

Um cometa cravado em tua coxa. Este é o nome do volume de contos do escritor Luís Pimentel que a Editora Record lançou em 2003. Não podia conceber que por trás de um título desse pudesse haver coisa ruim,  já que, a meu ver, conforme já falei e falo sempre, antes da dimensão narrativa, o texto em prosa não “vai pra frente” sem a dimensão estética.

No entanto, muito mais que isso, fiquei surpreso com a capacidade com que esse autor que Feira de Santana deu pro Brasil pode reunir ironia, lirismo e poesia em seu textos. E é poesia mesmo, verbo  delirando,  novos campos semânticos surgindo no papel. E eu, besta, assistindo a tudo, invejando o título do livro e seus textos, que trazem coisa do tipo: cometa é algo “que nem você, que chega quando menos se espera e some quando mais se precisa. Que escurece a visão e ilumina os lençóis. Essa maldade nos lábios, esse cometa na coxa“.

Defensor ferrenho do texto enxuto, Pimentel, homem de televisão, jornalista, poeta e escritor, joga bem com as palavras. Faz arrepiar com elas sem perder a graça; e com um olhar arguto pras coisas pequenas, que por dentro se agigantam; ou pelo menos, se tornam grandiosas diante dele.

Perico, de Juan José Morosoli

 

A lembrança é muito clara. Há mais ou menos dois anos tomei conhecimento da literatura do autor uruguaio Juan José Morosoli, o que se deu através de um pequeno livro de contos que a L&PM publicou em sua coleção de bolso: A longa viagem de prazer, é o nome.  Gostei tanto do autor, seus procedimentos estéticos, sua leveza, que o recomendei e recomendo sempre.

Depois,  claro, tentando desencavar mais coisas do autor, descobri Três meninos, dois homens e um cachorro ( Mercado Aberto, 1992), que comprei pra Bia,  mas acabei lendo também e adorando.

Mais recentemente foi que descobri Perico (Mercado Aberto, 1993), uma obra prima da literatura infantojuvenil. Dei pouca importância a essa classificação, me dediquei com avidez aos continhos que Morosoli traz no volume e percebi que não há nada de tão infantojuvenil assim, já que o caráter infantojuvenil, nesse caso, é nada mais que convidar o leitor a ver o mundo e a existência humana com as cores com que a juventude nos mostra, e que o adultismo nos ofusca às vistas. Os contos de Morosoli terminam bruscamente, mas é curioso perceber que o autor, com isso, nos permite fechar os olhos e terminar o texto. Em poucas linhas de cada um dos quinze textos o autor consegue dar conta justamente desse mundo gracioso que se perde, paralelamente com a perda da inocência. Dessa forma nos mostra, com sutileza, que não só o indivíduo perde a inocência, mas o mundo.

Morosoli, nos contos de Perico, é irresoluto, e, no meu entendimento, por isso,  um grande autor, um grande artista. Um dos autores mais tocantes que li nos últimos tempos. Recomendo a todos.

“A corista e outras histórias”, de Tchékhov

Nunca deixo de me surpreender com a capacidade de síntese desse mestre. Aliás, esse e outros atributos permitem que o chame assim, um mestre. Tchékhov recria, encena e relê a miséria humana e suas sutilezas, magistralmente, muitas vezes em duas páginas. Foi pensando nisso que a L&PM criou uma minicoleção dentro da sua coleção de bolso (já bastante conhecida do público leitor); falo da  Coleção 64 páginas. Leituras rápidas e densas é o que promete a coleção; e o que é melhor, com  o que há de bom na literatura mundial. No volume do mestre russo a editora traz, além dos contos breves, também alguns mais longos, como A dama do cachorrinho e A noiva. Alguns textos eu já conhecia, como boa parte da sua obra, mas isso não impediu que me deleitasse de novo com essas pérolas do grande ficcionista.

Vale a pena. Nas livrarias, A corista e outras histórias, de Tchékhov a preços popularíssimos: R$5,00.

Um abraço.

Dênisson Padilha Filho.

“Dona Mimma”, de Luigi Pirandello

O que mais me impressiona na contística do grande Luigi Pirandello é a despretensão com que ele narra as histórias. No volume de contos intitulado Dona Mimma (Berlendis&Vertecchia, 2002), o siciliano da gema, notabilizado pela dramaturgia que escreveu na reta final de sua vida, traz à baila coisas simples de uma aldeia, como por exemplo um passarinho que vive com dois velhos e é cobiçado pelo gato persa, todos sob o olhar das estrelas; falo do conto Um gato, um pintassilgo e as estrelas. Noutro conto, a conversa entre pais num vagão de trem sobre os filhos que a guerra levou: Quando se compreende. Em Banco sob um velho cipreste,  dois homens  – um marido e um amante – pautam a vida no amor por uma mulher e se encontram,  já velhos e derrotados, num banco de parque.

Creio que não há perigo de eu estar estragando coisa alguma ao falar assim de alguns dos contos do volume, pois o grande prazer está, repito, na leveza narrativa de Pirandello e na dimensão estética dos textos.

Anterior a esse Dona Mimma, também em bela edição, a editora lançou O velho Deus, que reúne as novelas de Pirandello. Já pedi meu exemplar, mas ainda não li. O que pressupõe que voltaremos a falar, em breve e com muito prazer, da obra do mestre.

Abraços.

Dênisson Padilha Filho.

MENELAU E OS HOMENS: Demasiado ambíguos – Resenha de Paulo André Correia para a VERBO21

 

Clique no trecho e leia a resenha completa que a VERBO21 publicou sobre Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012).

“Numa conversa virtual com Dênisson, falei desse viés ritualístico e ele falou do confronto entre o ideal helênico de cultura e o ideal judaico. Atentei então para os nomes dos personagens. Menelau, que lembra o ideal grego de herói e Davi, o herói judaico, com a vitória do segundo. Na minha leitura, como já salientei, vi a metáfora da invasão violenta dos valores da dita modernidade urbana. Davi, capturado, deixa o amigo Menelau nas brenhas do sertão por vários dias e percebe que só resta voltar à cidade, deixando a certeza de que na vida não há inocentes, pois como lhe revela a voz intrusa que aparece na narrativa: “os homens não são bicho de confiança” (p. 43). Davi, então, “tomou as rédeas de sua égua monumental, montou e se afastou num galope apressado, afinal, a cidade precisava dele” (p. 43). A hybris (a ambiguidade de que fala o narrador de Calumbi) derrota a aretê (o ideal épico de virtude)”.

Paulo André Correia é Mestre em Literatura pela UEFS. Atualmente leciona na UNEB.

“Insolação”, de Ivan Bunin

Terminei de ler Insolação (Objetiva, 2002), livro de contos do russo Ivan Bunin (1870-1953). Fiquei extasiado com esse Nobel de Literatura, que é tido como o Tchéckhov da Rússia pós-revolução (o que por si dispensa boa parte dos elogios, pelo menos a meu ver).

Pouco aclamado pela grande mídia, Bunin escreve com arrojo,  ironia e lirismo sobre a violência que nos condiciona homens. O autor tem uma versatilidade –  e muito do arrojo de que falei se dá por conta disso –  que permite tanto contos de maior fôlego, quanto contos breves, caceteiros,  de página e meia. Todos eles, enfim, precisos em cada palavra com que esse autor escolhe falar de amor,  melancolia,  ou tardes quentes da Rússia rural.

Excelente leitura. Terminei gratíssimo pela dica dada pelo amigo e escritor Mayrant Gallo.

Abraços.

Dênisson Padilha Filho.