Silêncio

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A cree woman, by Edward Curtis

      Casal no sofá em casa, assistindo a um dos filmes de fronteira da coleção dele.

     ― Sally Duas Árvores. ― Ela diz. ― Curioso o nome dela. Olha como ela olhou pra Ned. O olhar dela diz tudo. Garanto que ela consegue dizer tudo assim, com o olhar. Olha como ela olhou pra ele na hora em que ele montou e saiu. Ele nem teve coragem de chegar perto pra se despedir. Os índios não são muito simpáticos, mas deve ser interessante pro cara ser casado com uma índia, que fala pouco e se comunica mais com o olhar.

      ― Deve ser.

Permiso para salir

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Uma águia  se assentou na nopalera pra saborear a cascavel recém caçada. O sol era impiedoso, como em grande parte dos dias ali. De um lado da estradinha vermelha e desolada vinha um cavaleiro vestido de poeira, no belo coldre na cintura rebrilhava sua .45. Do outro lado da mesma estrada, crescendo com o galopinho viageiro, um apache chiricaua e sua mulher. Ele vinha imponente, superior a tudo, irmão do vento, montado num mustangue rosilho. Ela, correndo atrás, como se contasse as pisadas do rosilho.

― Alto lá! Pele vermelha, de onde visita esses quadrantes?

― Vivo na Reserva de San Carlos. Permissão pra sair. Meu velho pai agoniza em Sonora.

― Mas por que você viaja a cavalo e a mulher segue a pé, correndo atrás?

― Porque ela não tem cavalo.

A águia já havia acabado seu banquete quando o chiricaua falou aquilo e seguiu seu rumo. O cavaleiro empoeirado desistiu de sacar sua .45 prateada e foi se afastando também, enquanto uma voz ecoava em sua mente: “Pinche guerrero de las montañas…mujercita estúpida!“.

Como quem sonha

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― Pai,  é verdade que meu avô era um pistoleiro frio e que matou mais de oito?

― É, filho, é verdade, infelizmente.

― E ele morreu de quê, pai?

― Morte natural.

― Mas ontem os meninos daqui da rua ficaram rindo de mim, dizendo que meu avô nem podia sair de dia, e que ele morreu feito um cão danado, acuado nos matos com quarenta tiros.

― Foi justamente o que eu disse, morte natural.

O filho deixou o jogo de pega-varetas no chão, apagou a luz do quarto e foi dormir. O pai foi pra sala com uma ligeira impressão de que os meninos da rua pegaram pesado demais.

PASEO EN MEXICO VIEJO

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Painel de Diego Rivera, Palácio de Belas Artes, México DF.

Família passeando no Palácio de Belas Artes, Mexico- DF. O filho mais novo pergunta ao pai:

 – Pai, tudo isso que a gente vê aqui no México… essas construções, catedrais imensas… é verdade  que é tudo de pedra e cal?

 – Sim, filho.

 – Como assim? Pedra e cal só?

 – E sangue, filho. Sem sangue, muito sangue, nada disso estaria de pé.

O pai saiu andando, visitando o resto do museu, com uma ligeira sensação de que havia pegado pesado demais…

90 DIAS DE UM MUNDO MAIS CINZA

Desde que ele fez a viagem fico me perguntando, onde será que está? Defendo a ideia de que está por aí, fazendo folia nas estrelas, rindo alto, bonachão que era. Talvez cantando e convidando cada partícula de poeira cósmica pra cantar com ele. Ou, quem sabe,  pela Via Láctea convocando as criancinhas, “aprendendo com elas”,   como costumava dizer.

Só sei que em meio a tantas elucubrações,  fiquei e ficamos aqui, nós outros, órfãos, deserdados das alegrias do ipê-amarelo mais vivo, festeiro e criativo que a música brasileira já teve.

90 dias sem Dércio Marques;  e o que ficou foi um mundo mais cinza. A afirmação pode parecer derrotista, mas é o que sinto. Volta e meia vem de lá, do fundo, uma saudade doída que só ela.

Resta seguir… aguardar o dia em que, em sonho ou não, serei surpreendido com mais uma chegada furtiva desse menestrel maior, rindo alto, emendando canções e mitigando nossa dor…

Fluidez sem quebras

“…Em Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012) estão reunidas grandes virtudes para que o livro se torne uma leitura altamente indicável para os amigos: texto bem escrito, personagens cativantes e uma inteligente e ímpar abordagem sobre a natureza humana. Ou desumana, como o próprio livro nos lembra” (Mariana Paiva, ATarde, 27.08.2012).

Vai em paz, mano Dércio

Vídeo

Dércio Marques, querido menestrel,  eterno coração de menino, vai em paz e, por onde andar, assim como fez entre nós, leva suas gargalhadas altas e, sobretudo, a magia da sua música.

…O girassol mudou de rua

Virou de costas para o sol

Namora a lua

O mal-me-quer respira e exala

pra coroar seu bem-querer

Se despetala…

Feliz aquele que te conheceu, conheceu sua(s) arte(s).

Dênisson Padilha Filho, eternamente grato.