Ser também o que é alheio. Resenha de Menelau e os Homens, por Saulo Dourado

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              A new year in the cimarron. Óleo sobre tela de Frederic Remington.

Clique no trecho e leia a resenha completa que o  Blog de Literatura do iBahia publicou sobre Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012)

A noção de tempo nas letras é outra e, mesmo quase um ano após o lançamento de um livro, um exemplar pode a nós aparecer como a mais absoluta novidade. É o caso para mim de Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012), de Dênisson Padilha Filho, autor que acompanho por publicações em jornais e internet, sem antes ter-me sentado com um dos seus impressos, já o terceiro na lista que começou em 1999. Este agora que é composto por duas novelas e possui uma atmosférica imagem de cavalos na capa é mais uma manifestação do fascínio máximo do autor, a percorrer literatura e trabalhos acadêmicos seus: os solos do coração do vaqueiro. Nas duas narrativas, homens de rosto firme e pernas separadas por um lombo de cavalo percorrem seus enfrentamentos. E o nosso, enquanto leitor, coloca-se inicialmente pela questão: como sentir o mesmo que vaqueiros se eu não fizer ideia de como é ser um ou se não partilho dos mesmos elementos de realidade?

Saulo Dourado é escritor e professor. Ensina filosofia e publica contos em periódicos e portais. Venceu dois prêmios literários e um edital de criação. Também se envolve com materiais didáticos e com a coleta de provas para os casos que conta, os quais jura ter testemunhado.

VASTIDÕES, POEIRA E DEVOÇÕES INFAMES

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“…Não iria, portanto, desde sempre sacrificar a memória dos seus olhos — habituados a vastidões, poeira, lajedos e tropeiros passantes — com as coiseirices domésticas da matrona. Desde sempre preferiu que fosse assim; que numa espécie de segregação recíproca a velha se alimentasse de suas paixões e devoções infames, com ele ao longe; e ele seguindo impoluto sem que suas mãos, puras de leite e suor, se contaminassem de valores e práticas menores.”

Trecho da novela Calumbi, que integra o livro Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012).

O vaqueiro Moisés

O sol, em todas as manhãs daquela quadra do ano, custava a varar a cerração pesada que recaía sobre a galharia seca do baixio, quadrante esquecido pelas chuvas, ao menos durante boa parte do ano. Tudo por quanto pudesse um homem assentar suas vistas era estático e infinitamente mordaz e, àquela hora, somente uma criatura se movia naquela penumbra devoluta de caatinga e carrascais pedregosos. O vaqueiro do Sítio do Calumbi. Seu cavalo, que dormira na manga logo detrás da casa, já atado ao mourão do curral, o acompanhava com os olhos. Assentia com mansidão o colocar da manta e da sela sobre si. Moisés, o vaqueiro, arrastando suas botinas velhas, ao tempo em que entrava no pequeno cômodo e saía com as peças do jaez de sua montaria, marcava, ora pelo chão de lajota, ora pela soleira da porta, ora pelo chão do terreiro, uma cadência monótona de sola e esporas. Única e primeira música das alvoradas da sequidão friorenta do baixio do Rio de Contas.

Colocou Moisés o peso sobre o estribo do seu cavalo ruço e saiu encourado e imponente. O cavalo, a pisar sutilmente e sem alarde, rumava com seu cavaleiro para dentro da galharia espinhenta. Moviam-se discretos, para não acordar o mundo.

A foto foi daqui.

Tropeiro, punhal, solidão

O tropeiro escutou a mucama falar e, ainda com deboche nos olhos, mirou de cima a baixo e lhe disse:

— Punhal desse é feito pra corrê trecho, rompê terra imensa… na minha cinta.

Persistiu a fitar, com o olhar comprido, a faceirice de Jacira, ajoelhada à beira da leitoa morta, e em seguida saiu, no rumo de onde estavam atados seus animais, a descansar à sombra da grande mangueira. Era aquele um sujeito vaidoso e galante, sempre a enrolar as pontas do seu bigode ralo. Volta e meia procurava, num esmero de retoque à sua soberba, algo de metal em que pudesse captar seu reflexo e mais ainda ajeitar sua beldade tola e empoeirada.