90 DIAS DE UM MUNDO MAIS CINZA

Desde que ele fez a viagem fico me perguntando, onde será que está? Defendo a ideia de que está por aí, fazendo folia nas estrelas, rindo alto, bonachão que era. Talvez cantando e convidando cada partícula de poeira cósmica pra cantar com ele. Ou, quem sabe,  pela Via Láctea convocando as criancinhas, “aprendendo com elas”,   como costumava dizer.

Só sei que em meio a tantas elucubrações,  fiquei e ficamos aqui, nós outros, órfãos, deserdados das alegrias do ipê-amarelo mais vivo, festeiro e criativo que a música brasileira já teve.

90 dias sem Dércio Marques;  e o que ficou foi um mundo mais cinza. A afirmação pode parecer derrotista, mas é o que sinto. Volta e meia vem de lá, do fundo, uma saudade doída que só ela.

Resta seguir… aguardar o dia em que, em sonho ou não, serei surpreendido com mais uma chegada furtiva desse menestrel maior, rindo alto, emendando canções e mitigando nossa dor…

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Um cometa cravado em tua coxa

A intenção desta resenha é recomendar um livro terrivelmente bem escrito.

Um cometa cravado em tua coxa. Este é o nome do volume de contos do escritor Luís Pimentel que a Editora Record lançou em 2003. Não podia conceber que por trás de um título desse pudesse haver coisa ruim,  já que, a meu ver, conforme já falei e falo sempre, antes da dimensão narrativa, o texto em prosa não “vai pra frente” sem a dimensão estética.

No entanto, muito mais que isso, fiquei surpreso com a capacidade com que esse autor que Feira de Santana deu pro Brasil pode reunir ironia, lirismo e poesia em seu textos. E é poesia mesmo, verbo  delirando,  novos campos semânticos surgindo no papel. E eu, besta, assistindo a tudo, invejando o título do livro e seus textos, que trazem coisa do tipo: cometa é algo “que nem você, que chega quando menos se espera e some quando mais se precisa. Que escurece a visão e ilumina os lençóis. Essa maldade nos lábios, esse cometa na coxa“.

Defensor ferrenho do texto enxuto, Pimentel, homem de televisão, jornalista, poeta e escritor, joga bem com as palavras. Faz arrepiar com elas sem perder a graça; e com um olhar arguto pras coisas pequenas, que por dentro se agigantam; ou pelo menos, se tornam grandiosas diante dele.