Fluidez sem quebras

“…Em Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012) estão reunidas grandes virtudes para que o livro se torne uma leitura altamente indicável para os amigos: texto bem escrito, personagens cativantes e uma inteligente e ímpar abordagem sobre a natureza humana. Ou desumana, como o próprio livro nos lembra” (Mariana Paiva, ATarde, 27.08.2012).

Domingo, de Francisco Carvalho

Venus, de Botticelli (detalhe)

Domingo

É domingo no bosque dos sargaços
constelado de vento e de ardentia.
As ondas se agasalham nos rochedos

ou vão dormir na concha dos teus braços.
Tudo celebra a glória deste dia
em que brotam orquídeas dos teus dedos

e o mistério incendeia a tua nuca.
É domingo no mar. Todas as fúrias
acendem seus penachos de martírio

O coração se veste para a luta
como um herói de impávidas centúrias
que não sucumbe à febre do delírio.

É domingo nas angras, nas retinas
dos peixes e no delta das meninas.

(Francisco Carvalho)

Perico, de Juan José Morosoli

 

A lembrança é muito clara. Há mais ou menos dois anos tomei conhecimento da literatura do autor uruguaio Juan José Morosoli, o que se deu através de um pequeno livro de contos que a L&PM publicou em sua coleção de bolso: A longa viagem de prazer, é o nome.  Gostei tanto do autor, seus procedimentos estéticos, sua leveza, que o recomendei e recomendo sempre.

Depois,  claro, tentando desencavar mais coisas do autor, descobri Três meninos, dois homens e um cachorro ( Mercado Aberto, 1992), que comprei pra Bia,  mas acabei lendo também e adorando.

Mais recentemente foi que descobri Perico (Mercado Aberto, 1993), uma obra prima da literatura infantojuvenil. Dei pouca importância a essa classificação, me dediquei com avidez aos continhos que Morosoli traz no volume e percebi que não há nada de tão infantojuvenil assim, já que o caráter infantojuvenil, nesse caso, é nada mais que convidar o leitor a ver o mundo e a existência humana com as cores com que a juventude nos mostra, e que o adultismo nos ofusca às vistas. Os contos de Morosoli terminam bruscamente, mas é curioso perceber que o autor, com isso, nos permite fechar os olhos e terminar o texto. Em poucas linhas de cada um dos quinze textos o autor consegue dar conta justamente desse mundo gracioso que se perde, paralelamente com a perda da inocência. Dessa forma nos mostra, com sutileza, que não só o indivíduo perde a inocência, mas o mundo.

Morosoli, nos contos de Perico, é irresoluto, e, no meu entendimento, por isso,  um grande autor, um grande artista. Um dos autores mais tocantes que li nos últimos tempos. Recomendo a todos.