O vaqueiro Moisés

O sol, em todas as manhãs daquela quadra do ano, custava a varar a cerração pesada que recaía sobre a galharia seca do baixio, quadrante esquecido pelas chuvas, ao menos durante boa parte do ano. Tudo por quanto pudesse um homem assentar suas vistas era estático e infinitamente mordaz e, àquela hora, somente uma criatura se movia naquela penumbra devoluta de caatinga e carrascais pedregosos. O vaqueiro do Sítio do Calumbi. Seu cavalo, que dormira na manga logo detrás da casa, já atado ao mourão do curral, o acompanhava com os olhos. Assentia com mansidão o colocar da manta e da sela sobre si. Moisés, o vaqueiro, arrastando suas botinas velhas, ao tempo em que entrava no pequeno cômodo e saía com as peças do jaez de sua montaria, marcava, ora pelo chão de lajota, ora pela soleira da porta, ora pelo chão do terreiro, uma cadência monótona de sola e esporas. Única e primeira música das alvoradas da sequidão friorenta do baixio do Rio de Contas.

Colocou Moisés o peso sobre o estribo do seu cavalo ruço e saiu encourado e imponente. O cavalo, a pisar sutilmente e sem alarde, rumava com seu cavaleiro para dentro da galharia espinhenta. Moviam-se discretos, para não acordar o mundo.

A foto foi daqui.

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