A orelha de Viana

Um escritor é sua linguagem. Sendo assim, estamos diante de um escritor: Dênisson Padilha Filho e este seu Menelau e os homens. O livro traz duas histórias que nos conduzem a um Brasil profundo, perdido no espaço, onde violência, lirismo e humanidade se fundem de forma indissociável.

A primeira história, que dá título ao livro, coloca em cena dois amigos inseparáveis, Davi e Menelau. O narrador sabe tirar da situação criada momentos de alta tensão e poesia, até chegar a seu final, dos mais tocantes de nossa literatura.

A segunda história, Calumbi, nos leva a uma época muito distante de nós: fins do século XIX.  O sítio do Calumbi, governado por dona Emiliana, de espírito escravocrata entranhado na alma, é o cenário da luta desigual entre ela e suas duas criadas, mesmo já tendo sido abolida a escravidão. As irmãs Jacira e Eulália sofrem sob o jugo de uma mulher que pensa ser ainda dona do corpo e da alma daqueles que lhe servem.

Embora seja um mundo áspero o criado por Dênisson Padilha, essa aspereza é minimizada pelo poder arrebatador da linguagem, por ele saber jogar as palavras com toda sua precisão. Exemplar é a cena em que Jacira pergunta à irmã como nasce o amor, e ela responde tão simples e definitiva: “O amor não nasce. O amor é, e pronto”.

O que há de comum entre as duas narrativas são os caminhos inesperados por onde enveredam. Quando pensamos que tudo está convergindo para determinado final, acontece uma guinada que altera nossas expectativas. Neste sentido, Padilha realiza de forma admirável aquela capacidade que todo bom conto deveria ter: surpreender o leitor.

Estamos, pois, diante de um escritor forte, que não se intimida ao revisitar um espaço que para muitos estaria esgotado: o sertão; aqui, mais precisamente, a caatinga. O que Dênisson mostra é que, para a literatura, não é o espaço que importa, mas a linguagem que o reveste.

Antonio Carlos Viana

Viana é autor de Brincar de manja (Cátedra, 1974), O meio do mundo e outros contos (Companhia das Letras, 1999), Aberto está o inferno (Companhia das Letras, 2004), Cine privê (Companhia das Letras, 2009), entre outras publicações. Quer saber mais? Clique aqui, aqui e aqui.

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